sábado, 22 de agosto de 2009

Sugestões para Atravessar Agosto

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções - úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia, categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um.Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismos. Assumidos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Ciclo vicioso.

- Ciclo vicioso, é tudo um maldito ciclo vicioso.

 

Dizia repetidamente, enquanto deitava com a mão molhada na areia da praia.

Depois se levantava em posição de lótus e começava a limpar a areia de sua mão. Até que

quando terminava de limpar. Sua coluna estava cansada. E ele tornava a deitar com a mão

na areia.

 

- "são tão frágeis"

 

Pensava ela enquanto tomava vinho e olhava ao longe para um homem que não se decidia se sentava ou se ficava deitado na areia.

Ela realmente conseguia ler as pessoas como ninguém. Conhecia a língua da alma e nada

parecia assusta-la.

 

- Do que você gosta?

- Nada. - respondeu ele tentando desviar os olhos do olhar profundo que ela lançava.

-então, faremos nada juntos - Disse ela enquanto repousava a cabeça em sua perna sem

pedir licença.

 

Não teve reação. Apenas olhou-a por um segundo, e tornou a fitar o horizonte, como se

conseguisse enxergar o fim do mar.

 

Ela, era bela, cabelos longos, pele branca, olhos negros e profundos, calma, vária e

vaga.

 

Ele, não era feio, mas também não era belo... Normal, chato, ranzinza... Essa era a

palavra. Ranzinza! Talvez pela falta de autoconfiança, talvez ego abalado. Talvez os

dois.

 

Já era tarde da noite não havia ninguém na praia. Alias, ele não lembrava nem porque

estava ali.

 

-Você não deveria aprisioná-los tanto assim - Ela disse enquanto tomava um gole do vinho

da garrafa e oferecia a ele.

 

- Escrever - Ele respondeu enquanto tomava o vinho, também na garrafa.

- Eu gostava de escrever.

- Ainda lembro como meu coração batia acelerado enquanto as idéias me vinham a cabeça.

- Mas tanto o sentimento quanto as idéias me abandonaram. Sinto falta as vezes.

 

- Bom, Então vamos escrever.

- Mas, não tenho caderno, nem caneta.

 

Ela levantou, pegou um graveto e começou a escrever na areia.

 

Escreveu sobre o mar, sobre iemanjá, sereias, fadas, tristeza e sabedoria...

Falou de amor, de encontros e desencontros.

Por fim olhou pra ele no fundo dos olhos e perguntou:

 

- O que achou?

- É lindo, mas é inútil.

- Por que escrever tão bela história na areia?

- Amanhã o mar vai apagar tudo mesmo.

- Nada dura pra sempre. - Disse ela sorrindo...

 

Tomou um ultimo gole do vinho, beijou-lhe a boca entrou no mar e não voltou mais.

 

Ele foi embora sem entender muita coisa, teve insônia. E volto a escrever aquela noite.

 

Na noite seguinte, foi a praia novamente. Andou até onde seus pés puderam aguentar, o

vinho ajudava. Mas o frio era forte.

Resolveu voltar.

 

Ia embora maldizendo a vida novamente quando avistou uma garota de longe...

Não era a mesma garota. Esta de cá era loira, e tinha cabelos curtos, seus olhos eram

verdes. Não poderia ser a mesma.

 

Ele passou e ela o olhava profundamente nos olhos.

 

-Hey, me da um pouco de vinho?

-Do que você gosta? - Perguntou ele...

-De escrever.

 

Entregou-lhe o vinho. Pegou um graveto e começou a anotar na areia...

 

“... Ciclo vicioso. É tudo um maldito ciclo vicioso...”

 

 

Israel Albuquerque.

   Vagabundo e alcoólatra nas horas vagas.

sábado, 4 de abril de 2009

Suavemente...

- Não posso ser feliz quando mudo só para satisfazer o seu egoísmo.Nem posso me sentir contente quando você me critica por não ter os seus pensamentos, ou por ver como você vê.Você me chama de rebelde. No entanto, cada vez que rejeitei as suas crenças você se rebelou contra as minhas.
Não procuro moldar a sua mente. Sei que você está se esforçando muito para ser só você.e não posso permitir que me diga o que ser...pois estou-me concentrando em ser eu.